Como tornar-se Mau em poucas lições

As minhas séries favoritas de TV são, estranhamente, aquelas onde não há fantasia. Para quem, desde muito cedo, teve uma abundante dieta de super-heróis, ou seja, um sortido saudável de coisas que não existem neste mundo, dizer que “Os Sopranos”, “The Wire” (A Escuta) e “Mad Men” são as séries que mais o entusiasmam é curioso. Mas a verdade é que qualidade é qualidade, não interessa em que forma, aspecto ou proveniência.

Léolo insistiu, SAM viu e Léolo tinha razão. “Breaking Bad” é a mais recente adição à (minha) lista das “melhores séries de TV”.

Costuma-se dizer que deve-se sempre esperar pelo fim de um livro para saber se ele vale alguma coisa ou não. Outros discordarão desta afirmação, achando que basta ler os 5 primeiros capítulos de um livro, ver a primeira meia hora de um filme ou ouvir os 10 primeiros segundos de uma música e ficar a saber se a obra vale ou não a pena continuar a ser vista, lida ou ouvida, classificando-a como boa ou má ou assim-assim. Sinceramente não sei em que lado da batalha está a verdade e, provavelmente, não interessa, porque quando algo como “Breaking Bad” aparece, e apesar de a série ainda não ter acabado (está na quarta temporada e até agora vou quase no final da terceira), quando a qualidade atinge os níveis que, por exemplo, atingiu no final da segunda temporada, o debate torna-se, como dizem os ingleses, “a moot point”. Qualidade é qualidade, não interessa em que forma, aspecto ou proveniência, volto a dizê-lo.

A história é a de um professor de Química de Liceu, perdido num qualquer subúrbio norte-americano, que descobre ter uma forma letal de cancro nos pulmões. O Sr. White (é este o nome do “herói”) reage de uma forma sui-generis. Deixa uma família de mulher, filho e filha ainda por nascer com dívidas, contas de médico que serão elevadíssimas, empréstimo de casa, tudo após uma longa vida de trabalho legal e honesto. Face ao cenário, decide colocar os seus dotes como químico ao serviço da arte de produção de meta-anfetamina, com o auxílio de um ex-aluno agora dealer, Jesse Pinkman.

O nome da série é apropriadíssimo pois esta é a longa e pausada caminhada do Sr. White pela estrada das boas intenções e, como diz o ditado português, há um lugar pejado delas. Ou, como diz o ditado inglês, “the road to Hell is paved with good intentions”. Paulatinamente, assistimos ao submergir do Sr. White nas àguas do crime e às enormes e discretas consequências deste “pecado original”.

Breaking Bad” é um longo “cautionary tale”, uma história sobre Moral e de como, ao abandoná-la, por mais que tenhamos boas intenções, aos poucos e poucos, sem nos apercebemos, perdemo-la e, acima de tudo, perdemo-nos. E nessa silenciosa explosão tudo à nossa volta é destruído, não só aqueles a quem nada queremos ou àqueles a quem queremos mal mas também àqueles a quem queremos o maior de todos os bens. Por isto tudo, mal posso esperar pelo “The End”.

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