Música à Quarta


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Through The Walls de WhoMadeWho - 2018 (Indie Pop)
Best Boy de Lucia - 2017 (Indie Rock)
Earth Tones de Lenzman - 2017 (Electronica)
Dark Eyed Messenger de Adrian Crowley - 2017 (Indie Rock)
Unearth de Crater  - 2018 (Electronica)
Vertigo de Eden - 2018 (Indie Pop)
M A N I A de Fall Out Boy - 2018 (Indie Pop)
Anywhere But Here de Pola Rise - 2018 (Indie Pop)
I Can Feel You Creep Into My Private Life de Tune-Yards - 2018 (Indie Pop)
Offerings de Typhoon - 2018 (Indie Rock)
Spacewalk de Rameses B - 2018 (Electronica)
The Worms Heart de The Shins - 2018 (Indie Rock)

The Darkest Hour e In The Fade (A Hora Mais Negra e Uma Mulher Não Chora)


O filme de actor. Um lugar-comum na altura em que os Óscares aproximam-se. Prestações tão fortes que condicionam a apreciação de um filme. Tão sublinhadas que podem mesmo eclipsar o trabalho do realizador. É o caso destes dois filmes: A Hora mais Negra de Joe Wright com Gary Oldman no papel de Churchill; Uma Mulher Não Chora de Fatih Akin com Diane Kruger como protagonista. 

São duas obras bastante diferentes. Uma é um drama histórico, de uma época que marcou a História da Humanidade, outro um drama familiar, com uma mulher a perder tudo a que dá importância e a tentar recuperar dessa perda. São, sem dúvida, duas poderosas prestações de ambos os actores, tendo já sido galardoados com vários prémios. A entrega de Oldman é total, alterando-se fisicamente (como a Academia de Hollywood tanto gosta). A sua transformação é de tal forma arrebatadora que o realizador vê-se forçado a ofuscar a presença e deixar toda a força do actor impor-se em cada enquadramento. Da mesma forma, a tragédia da personagem de Kruger e a reacção à mesma não deixam margem para outros intervenientes. Ela controla a narrativa. O olhar da actriz é a força motriz da história.

Como acontece repetidas vezes neste tipo de filmes, a obra fica-se por aí. Um tour de force do actor e pouco mais. São filmes tecnicamente bem executados mas sem chama de inovação e com pouca presença da assinatura do realizador, tirando um ou outro apontamento. Quanto à narrativa, no caso da Hora Mais Negra, é sobejamente conhecida, e este filme funciona como um interessante complemento ao Dunkirk de Christopher Nolan - até poderão vender um pack conjunto para os apreciadores do género e da época. No que diz respeito a Uma Mulher Não Chora, a história é poderosa e socialmente impactante mas desenvolve-se de forma mais ou menos linear e sem rasgos de surpresa. 

Dois filmes interessantes pelo trabalho de ambos os actores mas pouco mais que isso.

Call Me By Your Name (Chama-me pelo Teu Nome) de Luca Guadagnino

No Verão de 1983, um jovem investigador dos EUA desloca-se para o Norte de Itália, para a casa de campo de um professor de Arqueologia de renome. Na família que o recebe vive um jovem de 17 anos, interessado em música, inteligente e dono de uma cultura acima da média. Elio, o adolescente, fala fluentemente as línguas francesa, inglesa, italiana e mesmo um pouco de alemão. Desde o primeiro trocar de olhares que ele e Arnie, o americano, possuem uma atração mútua intensa, uma relação que, contudo, têm de controlar, esconder, mesmo um do outro, com medo das represálias óbvias. Aos poucos, as barreiras pessoais vão esmorecendo sob o peso da paixão e da intensidade física da atração. Uma relação acontece na casa dos pais de Elio, nos arredores bucólicos da aldeia e campo italianos. Este será sempre mais que um amor de Verão. Será um marco nas vidas de ambos, enquanto descobrem a intensidade a que o Amor pode chegar, quando verdadeiro e único.

Verdade. Dificilmente encontrarão uma palavra que melhor descreva este belíssimo mas intenso filme. Quando os dois jovens revelam o amor que nutrem um pelo o outro, quando o levam até às consequências finais, este Call Me By Your Name voa acima da mundanidade e afirma-se como um testamento à intensidade de um amor verdadeiro, único, daqueles que acontecem apenas uma vez na vida. A rendição completa do nosso querer e do nosso ser a outra pessoa, a dor física da separação, a dor física da união, estão presentes em cada enquadramento e em cada cena que os dois partilham. Isto é muito mais que o amor homossexual. É pura e simplesmente Amor. Sem outros rótulos.

O trabalho de todos os envolvidos, desde realizador a actores, passando por director de fotografia, são exemplares e cheios de intenção e emoção. O filme é belo não só pelos cenários, pelo mise en scéne, pela fotografia, mas principalmente pelo coração, pela intensidade e veracidade dos sentimentos. Luca Guadagnino já tinha dado  maravilhoso Eu Sou o Amor, um dos meus filmes favoritos de 2009, e regressa com este fabuloso Call Me By Your Name, já um dos favoritos de 2018. 

Álbuns para Sempre, 55

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços de um momento, feliz ou triste. São nossos mas também dos outros. Como em nenhuma outra arte a música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada um no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos The Weeknd e ao LP Thursday.

Uma BD aqui, outra BD ali, 7

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

The Old Guard números 1 a 5 de Greg Rucka e Leandro Fernández (Image)

As fantasias de muitos nós (eu, inclusive) passam por ser imortal. Superar os poucos anos que vivemos, ser eternamente jovens e experimentar todas as cambiantes da vida. Essa fantasia é de tal forma poderosa que inventamos ficções e religiões que perpetuam-na e embelezam-na. É desse pressuposto que Greg Rucka Leandro Fernández partem.

Somos apresentados a quatro humanos que não morrem. Alguns com milénios de existência, outros com apenas algumas centenas de anos. Uma mulher, a mais velha, dois amantes e um francês, o mais novo. No outro lado do mundo, uma nova imortal está prestes a nascer. E enquanto isso, os poderosos e ricos desejam saber o segredo da sua vida quase infinita. Quase, porque na realidade não são imortais. Morrem. Apenas muito depois de nós. Nesses dias aparentemente infindos, ocupam o tempo a amar, a comer e em missões paramilitares de objectivos diversos. São máquinas de guerra e de morte, com mais conhecimento esquecido do que alguns exércitos inteiros conseguirão aprender numa vida.

Rucka equilibra de forma magistral o entretenimento com o peso da imortalidade. O que poderia parecer um mero exercício de fantasia adolescente transforma-se numa reflexão filosófica do que significa ter muitos ou poucos anos à disposição. Ser imortal, aos olhos de quem vive há sete milénios, não é sentido como uma bênção. Rucka pensou bastante sobre isso. As frases e as personalidades de todos não são apenas esboços. Antes seres humanos bem desenhados. Leandro Fernández é um artista que acompanho desde os tempos do seu trabalho no Hellblazer e em Loveless, ambos com Brian Azzarello, e a sua proximidade estética a Eduardo Risso é sempre bem vinda.

Uma das melhores BDs deste ainda jovem ano de 2018.

Hal Jordan and The Green Lantern Corps número 36 de Robert Venditti e Jack Herbert (DC Comics)

Existem autores que transformam de tal forma as personagens que passam também a ser suas. O Demolidor não foi criado por Frank Miller, mas este alterou-o tanto que o Homem Sem Medo passou a ser mais seu do que dos autores originais. O mesmo aconteceu com os X-Men e Chris Claremont (e John Byrne). E com o Lanterna Verde e Geoff Johns. Este escritor agarrou em todo o passado da personagem e em todos os autores que nele trabalharam e deu vida a um conceito moribundo do universo DC. Teve mesmo o "privilégio" de ser-lhe dada a hipótese de escrever um epílogo onde a sua história era levada até aos dias finais do Lanterna, como se ele fosse seu. Mas estas personagens nunca são propriedade dos que mais contribuem para a sua vitalidade (como Alan Moore bem o sabe - e ele até contribuiu com algumas ideias que Johns aproveitou).

Robert Venditti teve a pouco invejável tarefa de seguir Johns. Confesso que fui dos que abandonou a revista mensal logo após o último número deste. Mas voltei com o DC Rebirth, pela sugestão involuntária de um amigo. Hal Jordan & The Green Lantern Corps de Venditti é francamente entretido, empolgante e cósmico. O escritor controla, e bem, as vozes de todas as personagens, consegue engendrar twists e abordagens diferentes ao universo dos Lanternas. Não se esforça por ter a reinvenção delirante de Johns mas faz uso do legado para construir uma montanha russa de pura diversão de super-heróis cósmicos. Este último número fecha um arco de história e no próximo o escritor traz o General Zod (o inimigo do Super-Homem no filme Homem de Aço) para confrontar Hal Jordan e os Polícias do Universo. Para descontrair a (minha) cabeça não está nada mau.

Damage número 1 de Robert Venditti e Tony Daniel (DC Comics)


A DC tem uma nova iniciativa chamada The New Age of Heroes. Liderada por Dan Didio e Jim Lee, editores-chefe da editora, tem dois objectivos principais: devolver algum "poder narrativo" aos desenhistas; criar novos conceitos (franquias, vamos lá ser sinceros) para a DC. Damage é o primeiro.

A personagem é basicamente uma versão do Hulk e este primeiro número é pouco mais que o protagonista em modo destruição pela paisagem dos EUA. Julgar uma série inteira por estas escassas páginas é injusto mas, também a julgar por elas, a vontade de regressar a este mundo é francamente pouca. Sou da escola que uma boa história eleva um livro de BD, enquanto que desenhos maravilhosos têm muita dificuldade em fazer o mesmo. Por melhor e mais tecnicamente perfeitos que sejam, se o conteúdo, o enredo, as personagens, a mensagem, o subtexto, o entretenimento, não forem bem contados tudo pode cair por terra. Existem excepções mas Damage não é uma delas. 

Livro bonito de folhear mas, pela amostra, estamos em risco de  ter em mãos uma BD ao estilo da Image, quando nasceu na década de 90. Bonita (para quem gosta). Lê-se em dois minutos. No que a mim diz respeito preciso de mais. 

Música à Quarta!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Wrong Creatures de Black Rebel Motorcycle Club - 2018 (Psycadhelic Rock)
Blue Madonna de Borns - 2018 (Indie Pop)
To Infinity de Special Explosion - 2018 (Indie Pop)
Shadow Work de Mammal Hands - 2017 (ElectroJazz)
Bolt In The Blue de Lpx - 2018 (Indie Pop)
Hurt Somebody de Noah Kahan - 2018 (Indie Pop)
Tales from the Backseat de The Academic - 2018 (Indie Pop)
The Spiritual Dark Age de To Kill A King - 2018 (Indie Rock)
The Golden Raveways 12 de Superpitcher - 2017 (Electronica)
Live de Girls in Airports - 2017 (Jazz)
Entendrillar Transpism de Bass Chef - 2017 (Electronica)
Unreleased, Pt. 1 de Furney - 2017 (Drum & Bass)
Mirapolis de Rone - 2017 (Electronica)
Waves 2 You de Young Dreams - 2018 (Indie Pop)

Uma BD aqui, outra BD ali, 6

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Extremity números 1 a 10 de Daniel Warren Johnson (Skybound e Image)


Já o ouvi várias vezes. Escrevam sobre aquilo que conhecem. Acredito nesta máxima. As palavras e os conceitos tendem a fluir mais facilmente quando falamos das nossas vidas, ou melhor, das nossas perspectivas. Mas não é, decididamente, apenas isso. Para o leitor, espectador ou ouvinte, a mensagem tende a tornar-se mais verdadeira, mais, paradoxalmente, universal. Apercebemos-nos, racional e emocionalmente, da honestidade das palavras, das imagens ou dos sons. É difícil de quantificar. Fácil de sentir. Este é o maior elogio que posso escrever sobre este Extremity de Daniel Warren Johnson, publicado em conjunto pela Skybound e pela Image.

Esta BD figurou em algumas das listas das melhores de 2017 e a minha curiosidade foi atiçada. Li os dez primeiros capítulos e fui imediatamente agarrado pela premissa e, principalmente, pela honestidade emocional com que o criador veicula esta estranha aventura num mundo alienígena. Sim, ele nunca viveu num mundo extra-terrestre e muito menos no que parece ser um futuro pós-apocalíptico. Mas o worldbuilding é sólido e as personagens baseadas na experiência pessoal do autor. As vozes delas são a sua voz. As palavras lêem-se com sentimento de veracidade, ainda que estejamos a dimensões de distância da nossa realidade.

Extremity passa-se num mundo de ilhas flutuantes, após uma catástrofe, onde várias tribos humanas degladiam-se pela sobrevivência e pela vingança. Uma mistura de Senhor dos Anéis e de Avatar. Incrivelmente dinâmico e cinético, com cenas de acção poderosas, bem-coreografadas, rápidas e muito violentas. Mas desenganem-se os que lêem "violência" e inflectem logo para gratuitidade. Existe ressonância emotiva em cada golpe dado e em cada gota de sangue derramada. E as mensagem e os momentos de paz são os que ajudam a sublinhar a violência extrema que lhes segue ou antecede.

Uma das grandes BDs em publicação na actualidade. Emoção em ecrã gigante.

The Wildstorm números oito a dez de Warren Ellis e Jon Davis-Hunt (Wildstorm e DC Comics)


Uma das razões porque sou um apaixonado (mas não um fanático) pela editora DC Comics são as histórias e séries publicadas mais ou menos entre meados da década de 80 e meados da primeira do século XX. Vinte anos de risco que deram algumas das mais emblemáticas BDs da minha vida, fora e dentro do mundo dos super-heróis. Foi com pesar que assisti à lenta queda da qualidade e inclinação adulta da editora (coincidente com a entrada do editor-chefe Dan Didio). Mas é com igual alegria que, recentemente, tenho recuperado a fé que tinha na maturidade das escolhas da DC. Começou com vendas fracas e com a reacção a elas: DC Rebirth - o electrochoque dado à ala dos super-heróis; experimentações como Young Animal; as personagens da Hanna Barbera; o ressurgimento da linha Elseworlds; e este Wildstorm.

Wildstorm pertencia ao autor Jim Lee, um dos fundadores da Image no início da década de 90, e era uma das subdivisões dessa mítica editora. Anos mais tarde, separar-se-ia da casa-mãe e acabaria por ser adquirida pela DC Comics. Há semelhança de outras aquisições, as personagens de vertente super-heroística seriam absorvidas pelo universo do Super-Homem e afins, passando a viver aventuras conjuntas (o evento Novos 52 de 2011, onde a editora começava tudo do zero, serviu para juntar os mundos da DC e da Wildstorm). Eis que se passam meros sete anos e Jim Lee decide voltar a isolar o seu universo e entrega as rédeas criativas ao escritor Warren Ellis, autor de alguns dos maiores sucessos da Wildstorm antes da junção com a DC: Authority; Planetary; para citar dois favoritos pessoais e obras de reconhecida importância sísmica.

Ellis decidiu recomeçar zero e contar um épico em 24 partes. As personagens são reconhecíveis para quem leu algo da antiga Wildstorm, mas é apenas isso: familiaridade. De resto, nada têm a ver. Como o zeitgeist deste meio da década de 10 do século XXI é outro, o escritor inflecte a escrita para uma sensibilidade ultra-tecnológica, sem perder a sua assinatura super-sónica, focando-se em personalidades duras, ultra-competentes e perigosamente sarcásticas. O mundo deste The Wildstorm é um mundo Ellisiano, de conspirações, de pouca fé na natureza humana e de risco constante à escala multiuniversal. A violência, à semelhança de Extremity é, desculpem o trocadilho manhoso, extrema, coreografada e assustadoramente bela. Arrisquem-se a ler mas façam-no de uma assentada. Porque esta é do tipo de séries cuja complexidade apela a uma leitura atenta e focada. Finalmente, não é todo de descurar o trabalho do desenhista Jon Davis-Hunt, uma surpresa em capacidade de desenho e do contar de uma história. A coreografia não seria a mesma.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh

O filme Fargo dos Irmãos Coen começava com uma das maiores mentiras da história da 7.ª Arte. Dizia ser baseado numa história verídica. Este Três Cartazes à Beira da Estrada poderia começar da mesma forma - e não porque tem como protagonista a mesma maravilhosa actriz, Frances McDornand. Ainda que o realizador tenha baseado o seu conto em cartazes que viu expostos à beira da estrada enquanto viajava pelos EUA, o enredo deste seu filme sai inteiramente da sua mente narrativa. E que enredo. A força da história carrega um filme que poderia cair facilmente no óbvio. Inflecte sistematicamente por caminhos inesperados, forçando o espectador a questionar-se sobre as intenções das personagens e as suas. Depressa inverte a moralidade do conto, torcendo-o e obrigando o espectador a estar alerta sobre a verdadeira intenção e motivação dos protagonistas.

Mildred Hayes, interpretada por Frances McDormand, é um mulher forjada por um casamento infeliz e pelo assassinato cruel da sua filha adolescente. A polícia local não conseguiu encontrar qualquer pista sobre o assassino e Mildred vê-se na obrigação de alugar os titulares três cartazes à beira da estrada para transmitir uma mensagem clara às forças de segurança e à comunidade local. A morte brutal da sua filha não poderia ser esquecida. Este é um filme, sim, sobre a injustiça de uma morte prematura, mas também sobre a moralidade da vingança, das intenções e verdades de cada um, escondidas muitas vezes deles próprios. É sobre preconceitos, racistas ou homofóbicos ou outros mais subtis, mas não menos destruidores. É impossível a tomada de posição moralmente elevada sobre a história de qualquer uma das personagens. Nenhuma é perfeita, justa e honesta até às últimas consequências de cada uma dessas palavras. Nisso o filme assume-se como uma parábola de vertente realista que entretém e, acima de tudo, questiona.

Como contadores deste maravilhoso conto moral e realista temos um realizador e argumentista que deixa a história respirar e assumir uma identidade completamente individualizada, temos actores no topo da sua arte a fazer mais com silêncios que com milhares de palavras. Todos convergem numa história poderosa e universal. Aqui não existem respostas, apenas questões.

Um filme extraordinário. Um enredo subtil e moralmente ambíguo. Uma Frances McDormand, um Sam Rockwell, um Woody Harrelson, sufocantemente humanos. Obrigatório e já um dos melhores do ano.

Álbuns para Sempre, 54

Existem álbuns e músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias.  São pedaços de um momento, feliz ou triste. São nossos mas também dos outros. Como em nenhuma outra arte a música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque ouvimos um mesmo álbum, cada um no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos Tom Waits e ao LP Brawlers, Bawlers & Bastards.





Uma BD aqui, outra BD ali, 5

Há quem diga que os floppies americanos estão a morrer (panfletos, como lhes chama um amigo; comics, como todos os conhecem). Eu cá espero que não porque adoro agarrá-los e devorá-los! É prazer que rezo para nunca acabar. Assim sendo, de vez em quando, vou escrever umas breves palavras sobre alguns que gostei de ler. Só isso. Gostado! Não são melhores nem piores que outras coisas.

Detective Comics números 969 a 971 de James Tynion IV, Joe Bennet e  Miguel Mendonça (DC Comics)

A revista que viu nascer o Batman continua a sua caminhada inexorável para o número 1000. James Tynion IV, desde o início do evento DC Rebirth, tem tomado as rédeas da escrita, focado-se não apenas no Cavaleiro das Trevas mas também, e essencialmente, nos seus ajudantes: Red Robin; Batwoman; Cassie Cain; Spoiler; Azrael; Batwing; Clayface. Formam uma equipa paramilitar com o óbvio intuito de trazer paz, lei e ordem às ruas caóticas da cidade mais criminosa do universo DC, Gotham City. Isto a despeito das forças democráticas de segurança. Ora é sobre este tema que parece focar-se a história incluída nestes números e que, conjuntamente, são três capítulos de uma saga apelidada de The Fall of the Batmen. O objectivo da história pode estar no título mas raramente assim o é.

Tynion aparenta escrever o culminar de enredos que começou na primeira página da sua sequência em Detective Comics. Muitas das personagens e eventos estão a confluir paraum final - nem que seja porque estamos a aproximar-nos do número 975, um marco sempre importante. A escrita é cativante, palavrosa (ao contrário de muitos comics os dele demoram a ler, graças a deus) e tem-se feito acompanhar de um conjunto de talentosos desenhistas. Este mês os portugueses têm o bónus, ao ver a arte de um conterrâneo seu, Miguel Mendonça, que já tinha agraciado as páginas dos últimos números da Mulher-Maravilha, versão Novos 52. A qualidade do trabalho continua a crescer a olhos vistos. É com enorme orgulho que vemos alguém tão talentoso da nossa pátria a trabalhar em ícones tão gigantes da cultura pop internacional. E o facto de estar a contribuir para uma das mais interessantes sequências de histórias da história recente do Batman é (quase) só um bónus.

X-Men - The Grand Design número 2 de Ed Piskor (Marvel)


Neste link escrevi sobre o primeiro número desta nova mini-série da Marvel com enfoque nos X-Men. O autor independente Ed Piskor tem por objectivo contar a história dos primeiros 300 números da revista Uncanny X-Men, um dos períodos mais marcantes do worldbuilding nos super-heróis dos EUA. Com este segundo número fecha uma das fases, comummente conhecida como a dos X-Men Originais. Logo a seguir viria a fase mais emblemática, a dos Novos X-Men, escrita maioritariamente por Chris Claremont e protagonizada por Wolverine, Tempestade, Nocturno, Kitty Pryde, Fênix, etc.

O objectivo de Piskor torna-se perfeitamente claro com este segundo número - que fecha a primeira de várias séries planeadas. O autor unifica toda(s) a(s) história(s), agregando-as sob o chapéu de algumas macro-histórias, nomeadamente as da perseguição dos mutantes por um cabal global e da reencarnação da entidade Fênix. Quem lê The Grand Design fica exactamente com essa sensação: de que sempre existiu um plano superior para toda a mitologia dos X-Men. Todos os enredos, todas as personagens, de forma directa ou indirecta, mais ou menos retorcida, contribuíram para um arco de história que ocupou mais de trinta anos. Piskor faz um trabalho quase documental mas cativante. Leitores velhos e novos ficarão agarrados a cada página. Para os primeiros readquire-se algum do lustro e mesmo da surpresa. Para os novos um deslumbramento de olhos inocentes. 

Agora espera-se pela segunda mini-série lá para os finais de 2018.