Black Panther de Ryan Coogler

(sem spoilers)

O novo filme do universo cinematográfico da Marvel é algo diferente. Não falo do facto de se passar longe das ruas de Nova Iorque ou mesmo do continente americano. Falo de um filme que parece mais preocupado em ser cinema e menos parte de uma oleada máquina que existe desde 2008. Faz parte do Universo da Marvel, mas não é necessário saber nada para seguir a história, divertir-se e gostar deste Black Panther. Falo de um filme que corrige algumas das falhas que têm sido apontadas a estas máquinas fazedoras de dinheiro. Mas estou a adiantar-me.

A história segue de perto a mitologia criada nas páginas da BD. Por um lado, temos a mais avançada nação do mundo em termos tecnológicos que é a Wakanda criada por Stan Lee e Jack Kirby na revista do Quarteto Fantástico. Por outro, temos o vilão, Killmonger, pensado pela mente de Don McGregor numa sequência de histórias criadas por este escritor na década de 70 - e que são consideradas a primeira (e informal) novela gráfica da Marvel (esta história foi compilada recentemente na Epic Collection do Black Panther, que podem encomendar em qualquer loja física ou online que venda BD). Finalmente, temos a politização e engajamento social do trabalho de outro escritor, Christopher Priest, também ele criador das Dora Milage (já falo delas) e dos Lobos Brancos (já escrevi sobre este criador neste link). Portanto, para os fãs desta personagem (que é relativamente desconhecida, mesmo para os mais acérrimos leitores) e de BD, a matéria-prima é respeitada de forma clara. Não quer isto dizer que não existam desvios em relação ao original. Especificamente, o vilão tem matizes mais cinzentos que o puro Mal que representava na BD, o que acaba por funcionar neste filme e transforma o Killmonger de Michael B. Jordan no melhor vilão da Marvel desde o Loki (finalmente).

As mulheres. É discutível se não serão elas as personagens mais interessantes deste filme. A Nakia de Lupita Nyong'o é o impulso motivador de T'Challa, o Pantera Negra, mas não perde com isso um átomo da sua personalidade e força. A mãe, protagonizada pela maravilhosa Angella Basset, não é o papel mais forte, mas prefigura uma presença maternal poderosa. Okoye de Danai Gurira é a melhor guerreira de Wakanda, a líder das Dora Milaje, as soldados desta nação, e talvez a mais mesmerizante personagem de todo o filme.  Só não ganha esse título porque ainda existe Letitia Wright no papel de Shuri, irmã do protagonista e a mente mais brilhante e genial deste universo fictício (sim, mais que Tony Stark). Para quem está atento a estas coisas, já a tínhamos visto no último episódio da quarta temporada de Black Mirror, mas aqui ela atinge um outro nível de encanto. Letitia rouba cada cena em que entra. No filme Thor Ragnarok, a Valquíria de Tessa Thompson era também o melhor do filme, mas nada que se compare a este santíssimo quarteto.

O argumento é outros dos fortes deste filme, quando comparado com esforços anteriores da Marvel. Este é uma história, enredo e personagens com um alcance mais complexo e maduro. A temática da raça e do drama histórico dos africanos é a peça central, abordada de forma convincente dentro dos limites de um filme de entretenimento, que procura agradar o mais possível e desagradar ao menor número de pessoas. Este é o primeiro filme da Marvel que arrisca para além das fronteiras auto-impostas da pura diversão e do escapismo. Só por isso já é um dos melhores (se não mesmo o melhor) deste universo cinematográfico. E, ao contrário de Thor Ragnarok, os argumentistas conseguem um melhor equilíbrio entre drama e humor.

Chadwick Boseman, ainda que outra das forças do filme, é marginalmente eclipsado pelas quatro mulheres e pelo vilão. Por outro lado, o seu T'Challa ainda não é o herói confiante, altamente inteligente e pragmático desenvolvido por Christopher Priest na BD e seguido por outros autores como Jonathan Hickman, Al Ewing, Reginald Hudlin ou Ta-Nehisi Coates. Os efeitos especiais são maravilhosos excepto em algumas cenas, principalmente na climática da batalha final entre os antagonistas, que acaba por ser pouco interessante.

Black Panther é (provavelmente) o melhor filme da Marvel até o momento. Pela força do protagonista, das quatro mulheres que o acompanham, pelo vilão e pela temática mais complexa e madura. 

Álbuns para Sempre, 59

Existem músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias, felizes ou tristes. São nossas e dos outros. Como em nenhuma outra arte, a Música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque a ouvimos no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos Fleetwood Mac e ao LP Tango in the Night.

O que ler antes e depois do filme do Pantera Negra - a escrita de Christopher Priest.

O filme do Pantera Negra está nas salas de cinema. A editora Goody, que detém parte dos direitos das publicações da Marvel em Portugal, lançou recentemente uma mini-série com a sequência de histórias do autor Ta-Nehisi Coates, que podem adquirir aqui numa bela promoção. Mas não é só deste escritor que a História do regente da nação fictícia de Wakanda é feita. Muito pelo contrário. Diversos artistas já deram ar da sua criatividade desde a década de 60, quando a personagem apareceu pela primeira vez no número 52 da revista Fantastic Four, da autoria dos essenciais Stan Lee e Jack Kirby. Contudo , não é deles que aqui vos venho falar porque, apesar de terem sido os seus criadores, não foram dos que mais contribuíram para a personagem (excepto, talvez, o segundo). Hoje escrevo umas breves palavras sobre o primeiro volume de uma colecção de quatro que compilam toda a sequência de histórias do final da década de 90 e início do século XXI escrita por Christopher Priest.

Por vezes é necessária uma catástrofe para facilitar a mudança (já o dizia a personagem Destruição da obra Sandman de Neil Gaiman). No final da década de 90, a Marvel estava em apuros. Tinha entrado em bancarrota e necessitava de tempo para recuperar das dívidas aos seus credores. Uma das soluções foi contratualizar parte do seu catálogo de personagens a editores externos. Joe Quesada chegou-se à frente com um conjunto de autores de topo e ficou com alguns nomes sonantes: Demolidor; Justiceiro; o Pantera Negra. Já nesta altura, a personagem era pouco utilizada para além de algumas mini-séries, aparições em equipas de super-heróis (Vingadores), e a única revista regular remontava à década de 70. Ainda assim, a personagem tinha tido um historial rico, trabalhado por autores como Don McGregor, Rick Buckler, Gil Kane, Jack Kirby. Eis que surge Christopher Priest, cujo trabalho duraria 62 números na revista homónima da personagem, todos compilados nesta colecção de quatro volumes.

O tom de Priest é claramente mais adulto e politicamente engajado, focando-se nas peripécias típicas de super-heróis mas principalmente no papel de T'Challa (o nome verdadeiro do Pantera) como monarca de um nação soberana. Como o próprio refere nestas histórias, muito esquecem-se que estamos a falar de um Rei. Mas o escritor não e faz uso desse enquadramento para construir histórias complexas sobre a necessidade e sacrifício de um regente para gerir os destinos da sua nação. T'Challa não é um inocente super-herói com visões altruístas, mas antes um homem atento, inteligente e sagaz que não tem pejo em fazer qualquer acto (violento, conspirador) para levar o seu país pelo melhor caminho. Uma nação não só a mais tecnologicamente avançada do mundo como a detentora de riquezas naturais desejadas por muitos países civilizados. Ao mesmo tempo, decide construir uma mitologia mais robusta em volta da personagem, adicionando conceitos novos e relevantes (alguns serão utilizados no filme como as Dora Milaje, por exemplo) e não se esquecendo do trabalho de autores que o antecederam.

Priest é um dos maiores contribuidores para o Pantera Negra que vemos hoje em dia escrito por Ta-Nehisi Coates ou por Jonathan Hickman nos Vingadores, mas também aquele que veremos nas salas de cinema. Leitura essencial para perceber quem é T'Challa.

(quando acabar de ler os restantes três volumes darei conta do que achei que achei. Até lá, comprem à confiança este primeiro. Ou então, Goody, G.Floy, que tal pegarem nisto?)

Música à Quarta! Wednesday Music!


Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Every week, every day and, who knows, every hour, there's a new LP, EP or Single out. I'm not a music geek, just a listener. I choose based on style, on the names of artists I know, on what I heard on the radio, on Spotify's algorithms, and on friends tastes and suggestions. I know I hear only a small part of what is out there.

In this Blog, every Wednesday, I put together a list of albums I heard during the last week, and post it with links to Spotify. You can find that list below. In bold I highlight the albums I liked the best.

Humdrum Star de GoGo Penguim - 2018 (Jazz)
Misophonia de Chris Joss - 2018 (New Jazz)
Expectations de Wild Child - 2018 (Indie Rock)
Escape Unlikely de Chris Joss - 2017 (New Jazz)
Point of View de Zoo Brazil - 2018 (Electronica)
Lionheart de H.C. McEntire - 2018 (Indie Folk)
Born Again de RAIGN - 2018 (Indie Pop)
Brighter Wounds de Son Lux - 2018 (Electronica)
Beautiful People Will Ruin Your Life de The Wombats - 2018 (Indie Pop)
Boom Boom Boom (The Going Going Going Remixes) de Tosca - 2018 (Electronica) 
How to Measure the Distance Between Lovers de Mija - 2018 (Electronica)

Rapidinhas de BD - Black Hammer vol. 1; Empowered vol. 10; A Última Nota

Black Hammer vol. 1: Secret Origins de Jeff Lemire e Dave Stewart (Dark Horse)

Jeff Lemire é conhecido pelo ecletismo das suas escolhas para histórias na BD. Pode fazer incursões em super-heróis, como o seu maravilhoso, menosprezado e esquecido Superboy, ou entrar por territórios mais pessoais e independentes, como nos deliciosos Sweet Tooth ou The Nobody. Black Hammer situa-se a meio destes dois, uma viagem às recordações doces deste autor enquanto lia as aventuras dos homens de collants, mas também uma perspectiva idiossincrática que evoca visões mais sérias. Tudo se passa anos após uma batalha apocalíptica de super-heróis arquetípicos contra uma Deus do Mal. Depois dessa batalha o grupo é misteriosamente exilado para um mundo paralelo, e afastados das lides de defesa da justiça. Os vários membros da equipa adaptam-se o melhor que podem, uns bem e outros menos bem. É nesse equilíbrio da adaptação que Lemire explora as várias vidas das personagens. Não só elas são adaptações assumidas de arquétipos conhecidos (Super-Homem; Shazam; Monstro do Pântano; etc.), como as suas histórias funcionam como reflexões de enredos dessas mesmas personagens. O escritor consegue um perfeito equilíbrio entre o elogio/pastiche/cópia, a homenagem e a inovação, conseguindo dar algo de novo e algo de velho ao mesmo tempo. Esperemos que o segundo volume permaneça neste nível de qualidade.

Empowered vol. 10 de Adam Warren (Dark Horse)

Para quem lê este blog não será segredo que a BD Empowered de Adam Warren tem em mim um assumido fã. Já escrevi algo sobre ela (leiam aqui) e um dos artigos mais lidos da história do Acho que Acho foi (curiosamente) O Sexo na BD. Este volume 10 é mais do mesmo mas o mesmo é mesmo bom. A nossa heroína continua com problemas de auto-confiança, ainda que um dos enredos desta nova história tenha a ver com (spoiler) o ingresso numa equipa análoga à Liga da Justiça/Vingadores deste universo. Continua a tendência softcore, bondage e "all around titilating" que são as aventuras da voluptuosa e sensual personagem, toda ela um comentário à hipersexualização das mulheres na BD, mas assumindo (ironicamente ou não) esse comentário, devolvendo-nos uma exploração excitante que agarra o leitor. Outra das marcas de Warren são os diálogos entretidos, naturais e que oscilam entre uma oralidade assumida e uma verborreia intelectual e aliterativa cativante (até eu já me entrei pela hiper-adjectivação das frases). Empowered é uma mistura deliciosa entre guilty-pleasure e uma análise intelectual da BD. Não sei o que é na realidade, mas sei que adoro. 

A Última Nota de André Mateus e Filipe Duarte (Escorpião Azul)

A editora Escorpião Azul tem explorado a edição de autores portugueses desconhecidos. O ano passado deram-nos uma aventura deliciosa no Caderno da Tangerina de Rita Alfaiate, com um equilíbrio bastante interessante entre história e desenho. Recentemente, fui nova e agradavelmente surpreendido com este A Última Nota, uma exploração curiosa do mundo da música e de como nascem as lendas neste meio. A história acompanha dois amigos de infância, a aventura que têm com uma amada em comum e, anos depois, as consequências desse amor. Um deles transformou-se num ícone pop internacional, mas que procura a legitimação artística sonhada pelos músicos. Nesse demanda, irá reencontrar o amigo e reacender velhas memórias. A obra apresenta um enredo bastante interessante e entretido, com algumas reviravoltas que cativam o leitor. O desenho, apesar de conseguir algum breakdown da história fluído, apresenta falhas de técnica, sendo o elo fraco desta BD. Ainda assim, porque faço parte da escola história primeiro/imagem depois, A Última Nota revelou-se uma surpresa e uma delícia. 

The Post de Steven Spielberg

No que a mim diz respeito, Steven Spielberg é um dos mais importantes realizadores da História do Cinema mas também dono de uma filmografia desequilibrada. Não falo do ecletismo, da alternância entre filmes de entretenimento pop e outros mais cerebrais. Falo de filmes em que se nota todo um esforço do realizador e outros que (aparentam) ser mais preguiçosos. Por outro lado, os meus favoritos são os três primeiros Indiana Jones, o segundo Jurassic ParkGuerra dos Mundos e Minority Report (A.I., ainda que maravilhoso, é uma parceria entre ele e Stanley Kubrick). Existem outros dos quais reconheço a importância narrativa e histórica mas que ficaram longe desta lista dos meus favoritos: Resgate do Soldado Ryan; Tubarão, Encontros Imediatos; A Lista de Schindler. Nenhum destes filmes é preguiçoso. São marcos que sublinham uma carreira de autor dedicada à 7.ª Arte. Infelizmente, não se pode dizer nada disto em relação a este The Post.

The Post é um filme clara e sofregamente politico. É um filme feito à pressa para os Óscares e para fazer-se notar neste momento da História dos EUA, com a ascensão de um Presidente da República de moralidade ambígua e comportamentos que desafiam a Democracia. A obra segue os trâmites do filme de jornalista, em que um conjunto de pessoas lutam contra as instituições para fazer prevalecer uma verdade. Verdade esta que, no caso de The Post, passa pelo derrube de moralidades falsas do Governo dos EUA. O jornalista, desde muito cedo na história do cinema estado-unidense, funciona como um desafio à imagem de excepcionalismo que este país tem de si mesmo, uma forma de anti-John Wayne. Funcionam, em muitos casos, como forma de mostrar as falhas da Democracia deste país, que se apregoa como "a maior do mundo e da história". Contudo, e ao mesmo tempo, são uma forma do país, catarticamente, analisar-se e autoelogiar estes outros (anti) heróis que fazem funcionar o mesmo sistema que tentam "destruir". No meio desta dança entre patriotismo e anti-patriotismo, a mensagem é sempre agri-doce e não apoteótica. O filme do jornalismo acaba por reconhecer as próprias limitações da profissão, quando confrontada com a complexidade da realidade.

Uma das formas porque falha este The Post passa por não conseguir resistir a uma certa inocência. Spielberg vê necessidade em ver uma vitória clara na missão deste homens e destas mulheres. No Chefe da Redacção de Tom Hanks. Na dona da empresa detentora do jornal Washington Post, protagonizada por Merryl Streep. Nos muitos jornalistas. No whistle blower. Spielberg vê-se obrigado a discursos apoteóticos de vitória contra as instituições governamentais. Essa necessidade é Histórica e patológica mas as audiências não são as mesmas de há uns anos atrás (pelo menos as europeias).  Sabemos o que veio a seguir, sabemos do estado do jornalismo actual, da ingerência do lucro na procura da Verdade incómoda que o Jornalismo deve almejar, sabemos de quem ocupa actualmente a Casa Branca.

Consta que Spielberg despachou este filme entre outras produções para se colar ao momento actual e aos óscares. Isso nota-se. Apesar dos grandes nomes envolvidos, este The Post é um exercício simplista para uma questão complexa. Pedia-se mais do realizador e da história.

Álbuns para Sempre, 58

Existem músicas que permanecem. São mais do que prazeres. São memórias, felizes ou tristes. São nossas e dos outros. Como em nenhuma outra arte, a Música é comunhão. Quer por estarmos num concerto, quer porque a ouvimos no conforto de casa.

Todos os fins-de-semana vão poder ouvir um álbum que me marcou. Esta semana cabe aos The Police e ao LP Outlandos D'Amour.


The Shape of Water (A Forma da Água) de Guillermo Del Toro

Guillermo del Toro tem tudo para ser um realizador da minha preferência. A sua inclinação para a fantasia gótica deu ao mundo filmes como o Labirinto do Fauno ou a passagem para o cinema de uma das personagens de BD melhor adaptadas à sua sensibilidade, o Hellboy. Ambas as obras revelaram um realizador inventivo e imaginativo, mas também repleto de uma sensibilidade mais - digamos - universal. A sua paleta de cores, os seus décors, os designs de personagens, apesar de maravilhosos, valeriam de pouco se a alma da narrativa não almejasse a algo mais. E estas duas conseguiam esse equilíbrio. 

Posteriormente, o nome do realizador mexicano era envolvido em inúmeros projectos sem concretização, o mais emblemático dos quais sendo a passagem para o grande ecrã de The Hobbit. Por esta e aquela razão não pode prosseguir na equipa de trabalho dessa nova trilogia passada no mundo criado por Tolkien

Os filmes que se seguiram a Hellboy II foram Pacific Rim, uma redundante incursão no mundo dos robôs gigantes que os japoneses já fizeram mais e melhor (vejam o anime Evangelion, por exemplo), e Crimson Peak, um espectáculo visual com uma história pouco desenvolvida. Apesar destas duas falhas, estava com alguma expectativa em relação a este Shape of Water, principalmente por estar associado a vários prémios ou à promessa de vários prémios (sendo um deles os Óscares). Infelizmente, no que a mim diz respeito, as expectativas saíram goradas.

A Forma da Água é a história de amor entre uma mulher muda e uma estranha criatura subaquática que foi capturada por uma organização governamental dos EUA, onde a jovem trabalha como empregada de limpeza. Seguem-se várias peripécias que envolvem um agente vil, a evasão das instalações governamentais e o crescer do amor entre os protagonistas. Se isto  vos parece repetitivo e banal é porque o é. Não existe nada de mau com uma premissa  redundante se a mão do realizador for tão forte que esquecemos-nos da sensação de dejá vu. Aqui não existe. Del Toro é mestre do décor e do design, da beleza do enquadramento e dos cenários, tal como já o disse. E existe isso tudo neste filme. Mas fica-se por aí. A história parece o regurgitar de algo familiar, lembrando não só filmes anteriores do próprio como Hellboy (a criatura subaquática lembra Abe Sapien, até no facto de gostar de comer ovos), como também de outros realizadores como Jean Pierre Jeunet, o de Amelie e Delicatessen (o realizador francês chegou mesmo a acusar Del Toro de o copiar e não é difícil de perceber onde). 

Os actores cumprem as suas funções mas as personagens são lugares comuns. O sempre brilhante Michael Shannon interpreta, infelizmente, uma personagem bidimensional, caricatural e que pouco mais representa que a América Branca, protestante, racista e intolerante da Era Trump. Sally Hawkins vai bem como protagonista mas, no meio deste festival de personagens demasiadamente familiares, destacam-se antes Octavia Spencer e Michael Stuhlbarg (que está, curiosamente, em três dos candidatos a Óscar de Melhor Filme). 

Não é um filme mau, este Shape of Water. Nas mãos de outro realizador esperar-se-ia menos, mas não nas de Del Toro. A sensação é de que já vimos isto em qualquer lado e acho que não estou longe da verdade.

Música à Quarta!



Todas as semanas, todos os dias e, quem sabe, todas as horas, são lançados inúmeros LP'sEP'sSingles. Não sou melómano, apenas um ouvinte. Selecciono o que oiço pelo estilo, pelos nomes de artistas que conheço, pelo que oiço na rádio, pelos algoritmos do Spotify e pelos gostos e sugestões dos amigos. Sei que apenas oiço uma pequena parte do que existe.

Neste Blogtodas as quartas-feiras, compilo uma lista de álbuns que ouvi durante a semana e faço um post com ligação ao Spotify  onde podem ouvir o que ouvi. Em baixo podem encontrar a lista. Destaco a bold os álbuns que mais gostei.

Come Out. You’re Hiding de flor - 2018 (Indie Pop)
And The Brite Lites At Svenska Grammofonstudion de José Gonzalez - 2018 (Folk)
Young World de Gallery 47 - 2018 (Indie Rock)
Alive in New Light de IAMX - 2018 (Electronica)
Man in the Woods de Justin Timberlake - 2018 (Pop)
Aros Catering de Kalle J - 2018 (Indie Pop)
Sauna de Leyya - 2018 (Trip-Hop)
The House de Porches - 2018 (Electronica)
Someone Out There de Rae Morris - 2018 (Indie Pop)
Blood de Rhye - 2018 (Indie Pop)
November de SiR - 2018 (Soul)
Paramount de The Code - 2018 (Electronica)
Ikaros de Thea & The Wild - 2018 (Indie Pop)

Phantom Thread (A Linha Fantasma) de Paul Thomas Anderson

O Cinema é um animal de muitas caras, como qualquer Arte. Por isso, é sempre complicado falar de qualquer outra coisa que não sejam gostos. Uns preferem entretenimento. Outros Arte pela Arte. Outros algo entre estas duas visões. Por vezes, estamos preparados para acolher uma. Outras vezes a outra. A safra deste ano dos candidatos a Melhor Filme do Ano da mais famosa competição da 7.ª Arte, os Óscares, é uma safra muito interessante e estranhamente "boa" (desculpem o termo mas o que na realidade quero dizer é que gostei). Temos filmes de pendor histórico (A Hora Mais Negra e Dunkirk, que até fazem uma bela parelha). Temos o filme activista (The Post). Temos filmes que dançam entre estas e outras categorias (Get Out, Call Me My Your Name, Shape of Water, Three Billboards Outside Ebbing Missouri, Ladybird). E temos o OVNI, o miúdo que é meio estranho mas desconfias que vai ser alguém grande quando crescer. Temos este maravilhoso Phantom Thread de Paul Thomas Anderson com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps.

À data que escrevo este artigo ainda falta-me ver Ladybird, mas posso desde já dizer qual o meu filme favorito de entre os concorrentes. É mesmo este Phantom Thread, ainda que não ache que vá vencer qualquer prémio (o meu palpite vai para o também fabuloso Three Billboards Outside Ebbing Missouri). Existem filmes que conseguem ser Cinema Puro, em que a história é importante mas é também no desfilar das imagens, no casamento com a música, com os diálogos, com o décor, com o mise en scéne, etc., é nessa imponderável combinação que temos uma peça de Arte indefinível e única, pessoal. É isso que P.T. Anderson volta a entregar neste filme que é seu, tão seu, mas também suficientemente generoso para deixar os actores entregar personagens que os transformam, eles nas personagens e as personagens neles. Phantom Thread é Cinema sem filtros, é um bailado de imagens que ligam-se entre elas como as linhas que cozem e unem os vestidos da personagem principal. É Cinema de meias palavras e double entendre, de vida e de morte, do que vale a pena sentir e viver. É um épico cujo palco é o de uma casa e de uma loja. O do olhar e do corpo de duas pessoas apaixonadas.

Daniel Day-Lewis entrega uma personagem conturbada, mimada, obcecada, e cujo mundo perfeito e ordeiro é disruptado pela presença de uma mulher, a interpretada por Vicky Krieps. Quase desconhecida, entrega uma prestação que não só rivaliza com o gigante irlandês mas que o chega a superar, tal a força, magnetismo e potência da sua personagem e interpretação - não ser candidata a Óscar de Melhor Actriz é a maior falha deste ano. Nenhum dos intérpretes é menor. Os dois enfrentam-se e complementam-se, como actores e personagens, de forma simbiótica. 

A observá-los está o sempre fabuloso Paul Thomas Anderson que, até o momento, não fez (para mim) um único filme mau ou sequer mediano. Muito à semelhança de The Master e There Will Be Blood, o realizador fala-nos de um homem obsessivo-compulsivo mas genial que é confrontado com a presença de uma outra personagem, confrontacional e antagónica, que perpetuamente questiona a sua existência e objectivos (será que P.T. e Day-Lewis falam sobre si mesmos?). Neste caso, é o Amor encarnado, num dos mais belos elogios a este sentimento que o Cinema já nos deu. Eu sei que estou a exagerar mas este filme enaltece, no que a mim diz respeito, esta Arte. Aplausos de pé!